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COM QUE ROUPA EU VOU...


Felizes eram os índios brasileiros. Não porque viviam em completa harmonia com a natureza, numa vida idílica à beira-mar – mesmo porque essa é a maior romantização descabida da história. Imagina o trabalho que dava caçar, por exemplo. Tinha que cercar o bicho, matá-lo (o que não deve ser nada agradável), picá-lo (o que deve ser pior ainda), acender uma fogueira (o que é bem mais difícil do que parece), prepará-lo e comê-lo. Detalhe: em potes que você mesmo tinha que ter feito. É bem mais cômodo comprar tudo no mercado, onde as carnes brotam da bandejinha branca de isopor; botar na panela e mandar pra dentro nos pratinhos duralex.

Enfim. Devia ser bacana ser índio porque dava para andar peladão. Não que eu tenha uma tara em passear por aí com as vergonhas à mostra, como Pero Vaz disse que encontrou o pessoal que estava aqui primeiro. Mas simplesmente porque roupa dá um trabalho danado – e olha que nem estou falando de roupas que você mesmo faz.

Começa com a maratona de comprar as peças. Tem que pensar no que vai combinar com o quê. Porque não adianta nada olhar aquela peça amarela linda na arara, sabendo que seu guarda-roupa não contém uma única outra combinação que vá ornar com aquilo.

Após passar pela prova inicial das conjugações, lá vai você com aquele monte de pano para o provador – outra fase terrível. Primeiro, porque acho meio desagradável tirar todas suas vestimentas num cubículo com dois ganchos de pendurar roupas, separado do mundo exterior apenas por uma cortininha de pano que nunca fecha direito.

Segundo, porque é só começar a provar as peças escolhidas para perceber que tudo tinha caimento perfeito no manequim que adorna a loja, mas sobram (ou faltam) centímetros e centímetros em você. Qual é o segredo daqueles torsos plásticos, afinal?!

Depois de selecionar duas das quinze roupas com as quais você chegou no cubículo, filtradas pelo choque de descobrir que suas medidas nunca são iguais às do manequim plástico, a próxima etapa – sempre a mais terrível – é o caixa. Você descobre que aquelas duas míseras pecinhas custam pelo menos oitenta lascas. É incrível: nada custa menos que cinqüenta paus. E dá-lhe prestação – que, é claro, você vai esquecer de pagar dali um mês.

A coisa toda fica pior para mim quando tenho a missão de comprar alguma coisa “social”. Porque, acreditem, os termos “social” e “Tati” são piores que água e óleo para se misturar. Simplesmente não funcionam. Então, quando me deparo com um evento como o terei no final do mês – o tão esperado congresso -, sofro para achar alguma coisinha que sirva aos propósitos mais finos do lugar e, ao mesmo tempo, não façam eu me sentir uma pateta fantasiada de senhora. De quebra, que ainda sejam usáveis depois – afinal, gastar para depois encostar no fundo do armário é contra minha religião.

Depois de horas rodando lojas, desencanei. Escolhi um vestidinho preto simpático, que combinarei outras peças, um cachecol e um sapato boneca (eu acho, não decidi ainda). Como garota prevenida, fiz uma segunda opção. Nada como apostar numa embalagem que corresponde ao que você é e dentro da qual você vai se sentir à vontade. Parece editorial de revista feminina? Pois é, para vocês verem como “não é nada difícil andar na moda” – mesmo que seja a sua própria.


Ao som de Torn On The Platform de Jack Peñate

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2 comentários:

Bruna disse...

Oi Tat,

Dei muita "risada"...principalmente na parte de provar roupa e perceber q td cai bem no manequim e nada cai bem em mim....rsss muito bom...

Vc tinha que trabalhar na revista Época, na coluna Mulher 7x7...vc faria sucesso lá...kkk....

bjss..

Hugo disse...

eu acho q...em assunto de roupas, a humanidade regrediu...fik cada vez mais dificil se vestir d acordo com o q o povo pede..mas fazê o que né! agora sobre os indios terem esse costume de andar sem roupas..ufaaa ainda bem q eu nao sou indio kkkkkkk...deus me livre, ja é um sacrilégio ter q fikr só d sunga nas piscinas do sesc pq os calções de banho nao são permitidos..ahhhhh q raiva..ninguem merece

bom isso aí....belo texto moça
abraço

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