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:: IDEALISMO FREAK...

Atenção: Este texto, sobre o filme “Into the Wild”, contém spoilers. Ainda que a história do filme seja real e conhecida e que esteja ao alcance de uma busca no Google, achei por bem avisar.


Janis Joplin uma vez disse: "É melhor viver dez anos de uma vida efervecente do que morrer aos setenta e ter passado os dias assistindo TV". Eu sempre tive certas restrições com essa frase. E não é apenas porque gosto de TV, mas porque acho que a vida é muito preciosa para ser vivida na porra-louquice. Acho também que há uma grande distância entre a tal “vida efevercente” e a “vida não aproveitada”. Sou da opinião de que é possivel viver esses 70 anos (e 80, 90, 100) tendo experiências maravilhosas sem extrapolar limites do bom-senso. Porque extrapolar limites do bom-senso pode não ser inteligência, e sim burrice pura.

Talvez seja por isso que eu não sinto pena alguma de quem vai se enfiar lá no Everest e volta sem os dedos dos pés ou das mãos – ou, na pior das hipóteses, vira picolé de gente e nunca mais é encontrado. A pessoa decidiu fazer isso e, portanto, precisou arcar com as consequências que, cá entre nós, eram bem sabidas. Eu fico com pena da família da pessoa, dos pais, esposas, filhos, isso sim. Mas por quê estou contando isso? Porque pensei bastante no assunto após assistir ao filme “Into the Wild”.

A produção, dirigida e produzida por Sean Penn, conta uma história verdadeira que fez manchetes no começo dos anos 90. O jovem Christopher McCandless, depois de se formar, resolve jogar tudo para o alto e fugir de sua família burguesa em busca de uma idéia fixa: passar um tempo, sozinho, no Alaska, sem as amarras da sociedade moderna doente e consumista e blábláblá. Para isso, Chris doa a sua poupança para uma instituição de caridade, rasga todos os seus documentos e cartões de banco, abandona seu carro em um lugar deserto, muda de nome e cai na vida. Depois de perambular como mendigo, pegar carona clandestinamente em trens e fazer bicos para juntar um pouco de dinheiro, ele finalmente consegue chegar até o gelado e inóspito 49o. estado norte-americano.

“Into the Wild” é baseado em um livro-reportagem que começou a ser escrito quando Chris ainda estava desaparecido. A família dele, cheia de defeitos como toda família normal mas que o amava, colocou detetive e polícia atrás do garoto. Eles não sabiam o que havia acontecido, mas tinham certeza de que Chris tinha feito tudo de propósito. Enquanto os pais e irmã se descabelavam em casa, o rapaz curtia a vida natural em meio a crepúsculos maravilhosos, animais incríveis e silêncios reconfortantes. Ele inclusive deu a sorte de encontrar um ônibus abandonado no meio do nada que virou sua casa por semanas a fio.

Sean Penn é uma celebridade panfletária que, obviamente, quis fazer um filme sobre a coragem e a determinação do garoto contra as mazelas do mundo real. Já o livro trata Chris como alguém cheio de ideais sim, mas com muitos parafusos a menos. A história, afinal, não acabou bem. Nem poderia. Depois que a emoção hippie passou, Chris se viu sozinho, perdido, apavorado, fraco. Ele morreu de fome. Tinha 23 anos. Dias depois, seu corpo foi encontrado por caçadores que passavam por aquelas bandas. Se Chris tivesse levado um mapa, veria que estava a poucas milhas da civilização e que poderia ter buscado socorro quando o sonho virou pesadelo.

Enquanto sei que muita gente saiu do cinema com lágrimas olhos, eu penso o que diabos esse rapaz queria. Tudo parece muito bonito, mas sejamos práticos: será que Chris teve o que buscava? Será que valeu a pena passar por tudo aquilo e machucar tanta gente? Não acho que ele devesse ter passado 70 anos em frente da TV. Mas acho que, no saldo final, ele tinha muito mais o que ver, fazer e conhecer do que se permitiu.

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