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QUERIA SER...

Quando eu era pequena, queria se astronauta. E depois escritora. E depois arqueóloga. E depois astronauta de novo. O meu primo queria ser o que ele chamava de “gaseiro”, que nada mais era senão a ocupação daqueles moços que iam dependurados no caminhão de gás gritando “óóóóóó o gáhs!”. E meu irmão queria ser taxista. Ou trabalhar numa grande empresa no Japão e ser caminhoneiro, ao mesmo tempo. Ele já tinha tudo acertado: ia circular pelo escritório e assinar papeis de manhã e dirigir à tarde.
A gente está sempre querendo ser uma coisa ou outra. O M. Night Shyamalan que ser o Hitchcock. O Creed quer ser o Pearl Jam. A Wanessa Camargo quer ser o meu amor, mas essa eu passo. O Menudo, mais modesto, só queria ser “a ilusão que te acompanha a vida inteira, a emoção sincera pura e verdadeira, um amor que dá sem nada receber”.
Há quem queira ser mãe, quem queria ser magra e quem queria ser John Malkivich. Muitos querem ser celebridades hoje em dia. Talvez tenha virado até profissão, passando a figurar na boca dos pequenos que antes escolhiam coisas como “piloto de avião” e “aeromoça” (que, aliás, nem as próprias querem mais ser, já que hoje intitulam sua profissão como “comissária de bordo” e tem que agüentar passageiros injuriados com o caos aéreo).
Daí termos tantos programas do tipo “quero ser” em produção. Há quem queria ser cantor, quem queira ser modelo, quem queira trocar de família, quem queira uma babá para resolver em dois dias a cagada que fez na educação do filho desde a mais tenra idade, quem queria ser funcionário de um cara com um topete estranhíssimo, quem queira se ver reformado na mesa de cirurgia, enfim...
Quase ninguém quer ser o que é, mas isso é desde que o mundo é mundo. Só que antes não era televisionado com o nome de reality-show. No fundo, no fundo, desconfio que a maioria destes incautos só quer mesmo é aparecer na tv.
Milionário, então... Há uma porção de candidatos por aí. Tanto que o “Who to Be a Millionaire?”, programa de TV americana, fez tanto sucesso que ganhou adaptações ao redor do globo, como o “Show do Milhão” aqui no Brasil, apresentado por Silvio Santos.
Falando nisso, eu queria ser o Silvio Santos. Apesar do seqüestro e tudo. Quem não quer dar uns tapinhas nas costas do Roque, gravar uma marchinha que diz “a pipa do vovô não sobe mais” e ter aquela infinidade de colegas de trabalho?
Pff. Até aí, eu também queria ser magra, mas meu peso me desqualifica para tal cargo. O Tom Hanks queria ser grande, eu quero ser menos pesada. Tá vendo? O problema é que a gente quase nunca sabe o que quer e está sempre querendo demais.
14:38
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