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DE VOLTA ÀS AULAS...
Era um problema cabeludo. Cabeludo, com dentes grandes e garras afiadas. Voltar às aulas podia trazer uma boa carga de alegria – como na hora de reunir todo o material novinho, encapar os cadernos ou ganhar outra mochila. Mas também acarretava uma série de dificuldades. E acho que isso não acontecia somente no primário, a bordo do desconfortável uniforme de helanca. Mesmo com a idade avançada, já nas carteiras de um braço da universidade, recomeçar o ciclo estudantil podia ser um martírio.
Acho até que as coisas vão piorando conforme os anos passam. É duro começar as aulas na tenra infância, porque ainda somos todos bobinhos e morremos de medo de passar a vida toda como os otários escolares. Os anos passam, porém, e... bom, é problemático descobrir que você É um otário escolar.
Para quem vai encarar a volta à escola, há aqui alguns conselhos sobre os mais corriqueiros obstáculos dessa época complexa.
Fazer um amigo
Na escola: Era meio difícil, dada a timidez. Mas se você pudesse localizar algo em comum em outro aluno, facilitava. “Ei, seu caderno tem capa dos Power Rangers. O meu também! Quer ser meu amigo?”. Pronto.
No colegial: Não servia mais ter apenas os Power Rangers em comum. Aliás, se você gostasse deles, era melhor esconder o fato. Para achar um camarada, era preciso subornar. Oferecer um drops, dividir o livro, cola ou algo assim.
No superior: Fazer um amigo depende muito de postura social. Sentar perto não adianta, porque os lugares mudam todo dia. Mas você pode, em meio à aula de cálculo, fazer um comentário sardônico sobre a cara de buldogue do professor. Pegar pelo riso é uma chance.
Entrar para a turma
Na escola: Adentrar o núcleo principal da classe não é moleza. É preciso ter algo de muito valor agregado para aquela gentinha. Tipo uma caixa de lápis de cor que supere as 52 unidades. Ou uma mãe diretora da escola.
No colegial: Requer uma conjunção astral unindo beleza física, habilidade esportiva, capacidade de contar piadas e falar em público, um certo quê de rebeldia. Preenchendo os requisitos, logo você é chamado para a gangue.
No superior: Fazer turma é quase impossível. Afinal, fica bem complicado decidir se é melhor se juntar com os politizados, com os maconheiros, com as patricinhas, com os beberrões ou ficar na sua e evitar a fadiga.
Vestir a roupa certa
Na escola: Não há muita escapatória, pois o tal uniforme de helanca pincela a paisagem do pátio. No máximo, tira vantagem aquele que coordena o traje com um penteado de maria-chiquinha amarrado com bonita presilha. Ou um boné “dahora”.
No colegial: Quem quer se sobressair precisa arriscar. Com o uniforme ainda presente, pode-se transgredir com uma blusa legal por baixo da camiseta ou tênis rabiscados com o A do Anarquia. Fica um visual meio sujo, mas diz que funciona.
No superior: Peças alinhadas para quem quer mostrar que já trabalha; Jeans comum para quem quer mostrar simplicidade; Malha de lhama peruana e bolsa de pano para quem quer mostrar que “superou essa coisa elitista de pertencer ao academicismo”. O que quer que seja isso.
Levar todo o material
Na escola: Vixe, é uma lista polpuda que inclui mistérios como “12 folhas de papel laminado” e “Pasta de elástico em três tamanhos”. Não se usa metade disso nos trabalhos, mas é vital ter na sacolinha.
No colegial: Acaba a fase do papel crepom, mas ainda é importante descolar um bom caderno de 12 matérias e um estojo bacana. Quanto mais inusitado, melhor. E colar nomes de bandas em tudo pode ser a saída.
No superior: Há quem leve caderno. Há quem leve caneta. Há quem tenha até um invólucro para os livros xerocados. Mas o que interessa é que tudo isso seja confortável para apoiar a cabeça e dormir.
Se apegar com um professor
Na escola: Basta sentar na frente e não conversar, a tia já adora.
No colegial: Basta sentar na frente, não conversar, participar da aula e não lançar objetos pelos ares, a professora já adora.
No superior: Basta sentar na frente, não conversar, participar da aula, não lançar objetos pelos ares, não atender o celular e não acender um baseado, a mestra já adora.
Não se encrencar com ninguém
Na escola: É difícil. Sempre haverá um meliante-mirim querendo te dar uma rasteira na escada, levantar sua saia, afanar seu lanche. É preciso se impor. Ou contar tudo à inspetora.
No colegial: Os bandidos juvenis têm artimanhas terríveis, como escrever obscenidades sobre você no banheiro, ridicularizá-lo no intervalo ou espalhar boatos. É preciso se impor. Ou chamar o palhaço pro pau na saída.
No superior: As indisposições acontecem mesmo é em sala, em polêmicas sobre pena de morte ou eutanásia. E é preciso se impor. Ou chamar o oponente para tomar uma cerveja no bar.
Não dar vexame
Na escola: Levantar a mão sem saber a resposta é ruim, ir à lousa e errar o exercício, pior. Mas nada se compara a ter as calças baixadas por um colega. Se isso acontecer, melhor mudar de escola.
No colegial: É um mico se embananar na chamada oral. É uma tragédia ser o último escolhido para o time na educação física. Mas se sua mãe for te buscar e pedir beijinho, é suicídio social.
No superior: Entrar na sala com a aula começada é embaraçoso. Cantar um(a) menino(a) e ser esnobado(a), terrível. Mas sair em defesa de George W. Bush renderá uma passagem só de ida para a Sibéria acadêmica.
A todos os estudantes, desejo uma felicíssima volta às aulas!
Ao som de Here Comes Your Man por Meaghan Smith
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19:28
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3 comentários:
Poxa vida, quem nunca passou por uma situação como essas aí???
Só vc pra me fazer rir sozinho na frente do pc às 23:38, sendo que amanhã tenho que enfrentar um monte de alunos de faculdade como esses que vc falou.... Bjão
Aí tati vc é master engraçada tinha que ser coisas do mundinho da tati.Gostei muito legal bjs
kkkkkkkk meo como vc é criaiva hein....no meu caso nos primeiros dias de aula da minha vida sempre me dava dor de barriga
sabe que ter lido o seu texto me deu o que pensar....pq será q meus alunos se sentem assim....
abraço
te mais
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