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QUE PREGUIÇA...
Ai, que eu tô com uma preguiça...
A frase acima, que serviu de título a este texto, foi imortalizada na boca de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter do livro homônimo assinado pelo mui distinto Mário de Andrade. Na verdade, estas foram as primeiras palavras pronunciadas pelo herói. Mário sabia do que estava falando. Quem nunca foi assolado pela sensação que atire a primeira pedra. Ou melhor não, porque vai dar um trabalho... até achar a pedra, erguer, mirar... ih, deixa para lá.
Preguiça é um barato. Ela se apresenta de formas tão diferentes que a gente às vezes nem percebe que está, no fundo, no fundo, é com preguiça.
Tem aquela do tipo mais simples, indisfarçada, que a gente tem bastante quando criança – mas continua sujeito a ela por toda a vida. Preguiça de fazer a lição da escola, por exemplo. Muitas vezes a gente está querendo mesmo é assistir tv ou fazer gelinho de ki-suco em vez de copiar dez vezes a tabuada do 7, porque parece muito mais interessante, a curto prazo, melar as mãos de vermelho e refrescar o calor lambendo um gelo de coloração duvidosa a decorar que 7 vezes 6 dá... quanto mesmo? Bom, como vocês podem ver, eu tive preguiça.
O pior é que outras vezes a gente está com preguiça até de fazer gelinho ou chamar as amigas da rua para um chá de bonecas. Essa é a preguiça que resiste à infância. Só mudam os programas, claro. Em vez de ter preguiça de fazer a tabuada ou mesmo de brincar, a gente tem preguiça de terminar os relatórios do trabalho ou mesmo de pegar um cinema.
De repente, você se vê com vontade apenas de continuar deitada no sofá/cadeira de balanço/rede, balangando de leve para lá e para cá, notando qualquer coisa insuspeita como as rachaduras do azulejo perto do rodapé ou os desenhos involuntários formados pela franja do tapete com a passagem das pessoas. É a preguiça nível básico. Eu diria que atinge 99% da população (eu também diria que o 1% restante é meio mentiroso).
Outro tipo de preguiça é a macunaímica, de duração um pouco maior. Ela bate quando você até tenta fazer algo, mas no meio pára e percebe que... ai, está com uma preguiça! É para situações bem específicas, como a organização de uma festa, por exemplo, ou aquelas aulas de piano.
Com a lista de convidados pronta e as compras na cozinha, você nota que o processo é lento e talvez o barato não seja tão louco assim. Vai custar um bocado preparar o jantar para aquele monte de gente, e executar a "Polonaise" de Chopin com perfeição deve levar mais uns três anos de exercícios de dedilhado, por baixo. Claro que você não contava com isso. E é aí que entra a preguiça macunaímica.
(O problema com o herói do livro era que ele tinha esta preguiça com tudo na vida).
Mas acho que a pior preguiça de todas é a existencial. Muito sorrateiro, este tipo de preguiça é facilmente confundido com os outros dois, daí o perigo. Sabe aquela preguiça clássica de levantar da cama de manhã, quando temos ganas de afundar a cabeça dentro do travesseiro, cobri-la com o cobertor e ignorar solenemente o alarme já disparado pela terceira vez na função “soneca”?
Pois é. Às vezes é só preguiça básica mesmo. Mas às vezes é uma preguiça de existir. Daquelas que fazem a gente querer cavar um buraquinho na terra, entrar dentro e esperar passar. Essa é a única preguiça que eu gostaria que tivesse preguiça de aparecer.
Mas hoje, ainda bem, a única coisa que eu estava com preguiça era de fazer um texto. E já passou.
Ao som de You Can't Always Get What You Want por Band From TV
16:39
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