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NOVELA MEXICA...

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Responda rápido: o que os folhetins “Maria Mercedes”, “Simplesmente Maria” e “Maria do Bairro” têm em comum – além, é claro, de terem protagonistas de mesmo nome e serem produzidas na terra da tequila e do frijoles? É muito simples. Afinal, toda e qualquer novela mexicana que se preze segue um roteiro básico de personagens-chave, aqueles que invariavelmente estão presentes na trama. Apenas cabe ao autor mudar cenários, nomes e um ou outro detalhe menor.

Assim como receita de bolo vai farinha, leite, ovos e chocolate em pó, as sagas da Televisa levam uma mocinha sofredora, um mocinho rico, uma vilã vingativa e mais um punhado de figurinhas pra lá de batidas. Mas que, se não estiverem presentes, não dão aquela graça toda especial a esse gênero de melodrama. Então, da próxima vez em que você sintonizar o SBT e estiver passando uma novelinha mexicana, tenha em mãos este roteiro para saber se ela é das boas!


A Mocinha
Ela carrega sempre um nome muito popular, como Maria. É pobre, porém tem um nobre coração batendo no peito. É virgem, bonita e sorridente, apesar das dificuldades. Gosta de cantar e de dançar com as crianças ranhentas do bairro onde mora. Geralmente sofreu quando menina, perdeu os pais e foi criada pela avó (vide A Avó da Mocinha). Luta diariamente para manter a velhota, trabalhando no comércio informal vendendo flores, chiclete, fazendo roupa para a vizinhança, etc. O dinheiro que ganha não dá para manter o aluguel do cortiço, mas dá para pagar o cabeleireiro que mantém as madeixas reluzentes batendo na cintura. Sobe na vida com dignidade e de forma merecida, sem puxar o tapete de ninguém. Sofre por conta da vilã (vide A Vilã), mas consegue se casar com o mocinho (vide O Mocinho). Trata bem todos os empregados da casa e ensina o filho (vide O Filho do Casal) que honestidade vale a pena. Depois de ficar rica, só aparece de cabelo preso.


O Mocinho
Rico e mimado. Possui um carrão vermelho e usa roupas de playboy, tipo calça branca, camisa branca e pulôver amarelo-pintinho de decote V por cima. Cursa Direito como o pai. Tem amigos tão ricos quanto, mas que são bem mais ignorantes, exibicionistas e esbanjadores que ele. Eles não gostam de pobre, mas o mocinho nutre admiração pelos menos favorecidos. Já possui uma namorada ou uma noiva maligna, fútil ou as duas coisas juntas. Conhece a mocinha no farol ou em uma festa no subúrbio e apaixona-se por ela. Ou ainda resolve brincar com ela, mas depois acaba apaixonando-se de qualquer forma. Luta contra sua família influente para casar-se com ela. Consegue, porque o amor vence tudo. Compra uma mansão, contrata empregados e enche o guarda-roupa dela. Não permite que ela trabalhe mais. Depois de amadurecido, só aparece de bigode.


A Avó da Mocinha
Perdeu a filha e o genro em um trágico acidente de carro. Sozinha no mundo, só lhe resta a companhia da neta boazinha. Tem o cabelo de um tom de cinza que não existe na natureza e só usa vestidos de manga comprida com cores sóbrias, além de sapatos pesado de fivela. Sempre se parece com a Bruxa do 71. Não troca muito de roupa porque é pobre. Tem problemas de saúde sérios, precisa tomar remédios caros e só consegue se manter devido ao trabalho da mocinha. Mora em um casebre de paredes verde-água. Tem a foto do falecido marido pendurada na parede. Quando sabe do romance da neta com o mocinho, tem taquicardia e cai sentada no sofá com a mão no peito e a face endurecida. Conversa longamente com a Mocinha, tentando tirar-lhe a idéia da cabeça. Acha que o rapaz só quer brincar com ela. Costuma ser o alvo de algumas das maldades da vilã (vide A Vilã). Quando o mocinho e a mocinha se casam, acaba aprovando a união. Vai morar na mansão do casal e acha que manda nos empregados.


A Mãe do Mocinho
Ficou rica após se casar com o pai do mocinho, advogado. Dá ao filho único nome duplo, tipo Fernando Augusto. Só usa roupas caras e faz sessões de botox no rosto. Não é tão malvada quanto a vilã (vide A Vilã), mas não gosta de gente pobre, pois lembra a ela os tempos difíceis antes do casamento com o marido rico. Quando sabe que o filho está às voltas com a mocinha, tenta dissuadi-lo da idéia. Acha que ela quer dar o golpe do baú nele (coisa que conhece muito bem). Vai ao casamento dos dois de óculos escuros para esconder a cara de ódio pelo enlace. Tenta ser gentil com a mocinha, mas não consegue. Acaba sempre falando algo para humilhá-la e lembrá-la de onde ela veio. Gosta de esfregar na cara da mocinha que a casa onde moram foi comprada com o dinheiro da família dela. Escolhe os empregados a dedo. Treina funcionários para que eles escutem atrás das portas e lhe passem informações. Também dá palpite na arrumação e decoração da casa. Nutre esperanças de divórcio.


O Filho do Casal
Carrega o nome do pai, mas é conhecido apenas por um apelido. Por exemplo: se o pai se chama Fernando Augusto, ele é chamado de Nandinho. Usa o mesmo traje de playboy, com coletes estampados que nenhum outro adolescente usaria em sã consciência. A camisa é abotoada até o colarinho. Usa cabelo embebido em gel. Sabe da luta da mãe e a admira muito por isso. Introspectivo, fica sempre no canto durante as festas dos amigos. É o único da faculdade de Direito que conhece a realidade suburbana, e freqüentemente é alvo de chacota por conta desse fato. Também costuma ser alvo das maldades da vilã (vide A Vilã). Namora com meninas de sua espécie, ricas e fúteis. Acaba apaixonando-se de verdade, contudo, por alguma garota menos favorecida. Assim, repete a história dos próprios pais. A mocinha, quando sabe, lembra-se de quanto sofreu no meio dos ricos, então tenta tirar a idéia do romance da cabeça do filho. Mas tarde, porém, o apóia por reconhecer o verdadeiro e puro amor batendo no peito de Nandinho.


A Vilã
Se for velha, usa coque e algum outro acessório diferente, como bengalas e tapa-olhos. Costuma também inventar doenças ou se fingir de cega, surda ou muda, sem o ser. Se for jovem, tem laquê no cabelo e faz o estilo fatal. Dorme e acorda maquiada. Nutre um ódio sem precedentes pela mocinha e faz de tudo para destruí-la. Maltrata pessoas pobres nas ruas e empregados em casa. Quando chora, olha fixamente para frente e derruba apenas uma lágrima. Dá risadas histéricas forçando a cabeça para trás. Quando pensa em voz alta, fica séria e aperta os olhos. Usa as pessoas mais queridas da mocinha para vingar-se dela. Empurra a avó da mocinha no chão, atropela o filho da mocinha e dá em cima do marido da mocinha. Ela pode ter tido algum envolvimento passado com ele. Passa pela prisão, assusta até as colegas de cela e sai com mais raiva do que entrou. Não tem amigos. A única pessoa de confiança é uma secretária tão maligna quanto ela, que a ajuda a inventar e executar planos de destruição. Morre no último capítulo, de morte trágica. Tipo explosão.


Ao som de Anoche Sone Contigo do Kevin Johansen

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