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NA BEIRA DA PISCINA...

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Lá, na beirada da piscina, gira um mundo paralelo. Talvez pelo fato de seus habitantes andarem seminus, tudo funciona sem muitas regras ou imposições. Com o sol quente de verão se aproximando, nada melhor do que largar o corpo nesse recanto criado pelo homem e mantido por Deus.

Lá, na beirada da piscina, tudo se resume sempre em duas alternativas: rolar e se soltar todo na água ou ficar torrando mais um bocadinho? A frente está mais vermelha do que as costas? Beber suco e pensar na vida ou apostar no alcoólico e esquecer logo dela? Aquela formiga que vem vindo vai me picar ou passar reto? Mato ela antes disso ou espero até o limite da ameaça?

Lá, na beirada da piscina, nada disso precisa ser decidido também. É possível permanecer horas ao léu, debaixo do céu, coberto só pelo vento. Clima perfeito para piscina é esse mesmo: sol, sem qualquer nuvem barrando os raios, com uma leve brisa para refrescar. Mas também, quem liga se aparecer uma mancha cinza-chumbo no horizonte? Se vier chuva, a piscina pode até ficar melhor. Basta cruzar os braços atrás da cabeça e torcer para não levar um raio pela cara.

Lá, na beirada da piscina, porém, a idéia é relaxar, não se preocupar com a previsão climática. Também nada de mergulho bomba, gotas geladas arremessadas de longe ou violentas batidas de pé para espalhar água. Não seja indesejável! Quem ganha o direito divino de se recostar na beirada da piscina só quer paz, roupa de banho confortável, óculos escuros e um trecho seco de pedra mineira.

Lá, na beirada da piscina, foi que esse mineral encontrou valor de ouro. É a lajota perfeita para os vagabundos. Esquenta com o sol, absorve a água clorada em excesso (ou a cerveja que tombou devido ao estado lamentável de seu dono) e permite a fácil visualização de brincos perdidos. Como garotas perdem tanta bijuteria na piscina, também é mistério... Vai ver é culpa do local, que simplesmente não admite frescura ou ostentação.

Lá, na beirada da piscina, todos os mortais são idênticos. Uns, na verdade, são mais bem torneados que outros – o que fica bem à mostra com biquínis brancos ou sungas (argh). Apostar em maiô sempre é válido, mas quem precisa de tanto tecido em uma hora escaldante? Se as peças evidenciam gordurinhas, pneus, rugas, manchas, cicatrizes ou aquela cor de palmito, não importa. Rei da piscina é quem mergulha sem estardalhaço, como Ricardo Prado nos idos de 1984. Não precisamos de beldades na piscina, precisamos de malabaristas.

Lá, na beirada da piscina, vale sempre a democracia. Vale puxar papo, ler revista ou simplesmente fechar os olhos e tirar uma soneca. Vale relar a pontinha do dedo médio na superfície azul e decretar “morninha”, “fria”, “gelada” ou “polar”. E, em caso do veredicto ser a primeira, vale ainda afundar o restante da mão, o pé, as duas pernas – ou deixar de manha e saltar logo piscina adentro.

Lá, na beirada da piscina, quem faz isso é herói. Poucos são os fortes capazes de entrar na vida assim, de cabeça. Ou mesmo de manter brio e autoconfiança suficiente para atravessar o tanque todo, de ponta a ponta, submerso, sem reclamar no meio. Agora já nem sei mais se estou falando da piscina ou da vida... Fica muito parecido resumir os dois, depois de um tempo. A passagem por ambos pode render felicidade e tranqüilidade ou deixar dolorosas queimaduras. A gente é que escolhe.

Lá, na beirada da piscina, é onde eu queria estar agora. De óculos escuros, pra ninguém saber se estou dormindo, pensando ou chorando. De bruços, porque é mais cômodo. A bordo do biquíni vermelho, que não aperta como estas botinas aqui. Com uma mão imersa na água fria, outra apoiando o queixo. Aproveitando do mundo paralelo mais tranqüilo que existe.


Ao som de El Noi De La Mare por Muriel Anderson


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