PLAYLIST DO BLOG
LUZ, CAMERA, ILUSÃO!..
Tudo bem: cinema nada mais é do que um joguinho de luz e sombra que se torna bacana com algumas pitadas de cenário, figurino e diálogos. Não faz sentido acreditar que máquinas do tempo podem ser montadas em carros, que macacos comandam planetas e que o Adam Sandler seja um paizão. Acreditamos porque... ora, porque a realidade é chata e a arte número sete é uma boa escapatória da rotina. Os filmes só pecam mesmo nos detalhes. Haja vista grossa para ignorar pequenos delitos e seguir em frente, sendo enganado no escurinho e com pipocas.
E olha que isso é depoimento dado por uma sem-noção que, na salona ou mesmo na TV, cerra punhos e diz baixinho “Vai, Indy, soca a boca dele!”. Depois me lembro que arqueólogos costumam ser velhotes ranzinzas, e não bonitões que cruzam o mundo com um chicote em punho arrumando encrenca com nazistas. É cinema, é mentira, eu sei. Mas amo.
Dureza mesmo é notar os vícios dessa brincadeira. Acho que certas situações já foram tão repetidas nas telas que ninguém mais nota a contradição. Faço de conta que não percebi, porém alguns lances são engolidos a contragosto.
Eu amo cinema, mas nunca vou entender isto aqui:
Toda pia tem um belo conjunto de facas
Desde a cozinha mais bem equipada até o balcão americano de um modesto quarto-e-sala, todos possuem aquele suporte de madeira com seis facas afiadas. Prontas, é claro, para picar pimentões e se tornar uma arma contra invasores. Bastou ouvir um barulho no porão, lá vai a cidadã passar a mão na maior faca do indefectível conjunto. Se fosse aqui em casa, eu precisaria me defender com um ralador de queijo ou um espremedor de limão até achar uma faca que prestasse.
Poltrona de avião tem um espaço danado
Não há pernas apertadas roçando no banco da frente. Há, isso sim, muita área para reclinar a poltrona, espreguiçar, virar de lado, papear com o vizinho, fazer muitos e muitos amigos. Deve ser por isso que os personagens chegam ao destino sempre com a cara frugal de quem teve um vôo tranqüilo. Sou apenas eu que preciso me espremer naquele lugar, tendo pés inchados, costas tortas e vontade de pular na próxima nuvem?
As contas podem ser penduradas
Convidou a moça para um almoço, rolou briga, discussão e choro? Pode jogar o guardanapo de pano sobre a mesa, fazer um discurso e sair batendo o pé. Não se preocupe com o pagamento dos drinques e do couvert, não. A casa entende que aquilo é um filme, ninguém ali tem dinheiro de verdade. Gozado é que, quando janto fora, coloco o dinheiro na caderneta do garçom e vou saindo, mas ele vem no meu encalço pela rua dizendo “moça, faltou 12 centavos aqui”.
Mocinhos correm, bandidos caminham
Não importa se a garota é a Florence Griffith Joyner e cruza o prédio a 80 km/h para escapar do agressor. Lá atrás o sujeito mau virá andando pacificamente atrás dela, com compasso de soldado. E conseguirá colocar suas garras na tal! Melhor: ela vem em desabalada carreira mas, assim que aparecer uma coluna da garagem, o miserável vai sair de trás e apanhá-la cara a cara. Crápulas têm essa estranha propulsão ao perseguir vítimas.
Tem lua cheia toda santa noite
Quando a pessoa vai dormir, deita na cama e apaga a luz do aposento. Da janela, contudo, vem uma forte iluminação do luar, mostrada pela sempre presente cortina do tipo persiana. Nenhum deles faz questão de dormir no escuro total? Só eu acho um saco ter uma maledeta faixa clara marcando a parede? Ou, vai ver, diretores de cinema são lobisomens e só filmam tomadas quando há lua cheia. Bem cheia.
Câmeras fotográficas são barulhentas
Os paparazzis no cinema são tão indiscretos quanto possível. Eles e seus amigos detetives, policiais e xeretas em geral. Ficam lá, metidos em uma moita, esperando para clicar determinada cena. Botão acionado, a máquina faz um tremendo CLIQUE! – e depois o barulho característico do obturador abrindo e fechando. Acho que já não fabricam câmeras assim desde 1964. Tecnologia digital, gente. Já ouviram falar? É silenciosa à beça.
A cadeira do diretor
Talvez a maior enganação de todas aconteça nos bastidores. Continuam querendo nos fazer acreditar que diretores usam aquelas cadeiras de armar? São uns modelos toscos juntando duas ripas cruzadas e tecido no assento e no encosto. Então o Steven Spielberg, com uma fortuna de 12 quaquilhões de dólares na conta, trabalha aboletado em uma coisa perigosa e desconfortável assim? Só para ter seu nome escrito atrás dela? Me poupe. Cadeira de diretor é mentira tão bem contada quanto tudo o mais no cinema.
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19:47
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