PLAYLIST DO BLOG
QUEM NUNCA...
Ao som de Ursinho Pimpão da Turma do Balão Mágico
Da série Coisas de Criança
O saudável exercício da lembrança pode ser desencadeado por qualquer coisa, inclusive das menores. Basta abrir uma velha caixa de fotografias, uma agenda dos tempos do primário ou topar com uma daquelas peças de artesanato meio toscas, confeccionadas durante o pré, para ofertar à mamãe – geralmente porta-jóias decorados com papel colorido ou porta-retratos de palitos de sorvete – e pronto. Lá vêm as memórias.
Mas as lembranças podem aparecer em locais mais corriqueiros. Outro dia mesmo eu estava na fila do mercado quando uma moça com uma criança no colo se aproximou. Perguntei se queria passar na minha frente. Ela agradeceu e disse que ia mesmo esperar. Notei o penteado da menininha. Ela tinha uma franja de um dedo, bem à moda de criancinhas de filme de terror. Pensei: “olha o que a mãe faz com essa pobre coitada...”, e segui empacotando minhas compras.
Enquanto eu guardava as coisas, a caixa, que conhecia a moça, brincou com a menina e perguntou: “você aprontou, né?”, ao que a mãe disse rindo: “acabei de vir do cabeleireiro, fui tentar dar um jeito... tava pior, acredita?”. Entendi tudo e me arrependi de ter julgado o gosto para cabelos da abnegada mãe. Então, lembrei-me de que toda criança já...
Cortou o próprio cabelo
A menina no colo da mãe, na fila do caixa, experimentou suas habilidades nela mesma. As crianças costumam tosar a franja – para desespero das profissionais contratadas para consertar a aventura depois, já que é a parte mais à mostra da peruca. Acho que a visão infantil é mais ou menos assim: “bom, todo mês minha mãe senta na cadeira dessa moça, me faz esperar um bocado entre um monte de outras mulheres que apertam minhas bochechas, só para a danada pegar um tesoura e cortar aqui e ali o cabelo dela. Eu posso fazer isso. Só preciso de uma tesoura. A mamãe vai achar lindo – e nem vai ter que me pagar, como paga a mulher!”.
Matou um bichinho
As vítimas favoritas eram hamsters ou pintinhos de feira de animais. Muitas vezes, não tínhamos a intenção. Mas os danados dos animaizinhos não eram tão resistentes quanto os brinquedos da Estrela! Alguns jovens psicopatas também faziam experiências com sapos, coelhinhos ou besouros. Acho que eles queriam testar as habilidades dos bichos.
Teve um amigo invisível
Na minha família, essa manifestação imaginativa vem nos genes. Tanto minha mãe como eu e meu irmão tivemos nossos companheiros que ninguém mais podia ver. Algumas crianças ainda usam sua criação como bode expiatório: “quem quebrou o vaso foi o Duduca, não eu!” O legal é que o amigo imaginário sempre está lá quando precisamos, não come nossa bolacha nem chora para ficar com os melhores playmobils na hora de brincar. É muito melhor que um irmão – exceto pelo fato de não existir.
Comeu coisas estranhas
Entenda-se por “coisas estranhas” uma gama quase infindável de matérias: plástico, papel, madeira, terra e meleca de nariz. Claro que as degustações ocorrem sempre longe das vistas dos adultos, e saber que aquilo não é de comer deixa a aventura toda ainda mais saborosa. Só assim para ver graça em mastigar tais objetos. A não ser no caso do AAS e do Melhoral Infantil, verdadeiras delícias para o paladar pueril, engolidos deliberadamente como se fossem balas. Nem era tão ruim ficar doente...
Quis ser astronauta
Vale também qualquer outra profissão assim, meio esdrúxula e meio fantástica, como jogador de futebol, piloto de avião ou motorista do caminhão de gás. Na ingênua visão infantil, não percebemos que há poucas vagas no mercado para essas funções. Será que quem é, hoje, astronauta ou piloto de avião sonhava em ser administrador, caixa de supermercado ou qualquer outra coisa corriqueira quando era pequeno? Ou eles realizaram mesmo um raro sonho infantil? Que sorte!
Se perdeu e pegou na mão da mãe errada
Pode ocorrer no supermercado, na livraria ou na rua. Apesar de todo o cuidado materno, a capacidade das crianças em correr para os lados opostos ao porto seguro da mãe é impressionante. Depois, ao se perceberem sozinhos, desatam a chorar e pegam qualquer mão que vêem pelo caminho – quase sempre a da mãe errada.
Perdeu um brinquedo favorito e ficou desconsolada
No meu caso, a infeliz foi Helena, uma “playmobéia” (playmobil mulher). O fato é que decidimos, eu e meu irmão, armar uma catapulta de hominhos no quintal. Assim, começamos a testar a engenhoca: botamos o Mumm-ra numa ponta, batemos a mão na outra e o Mumm subiu e desceu. Viva! Aí, botamos um soldadinho qualquer. O bonequinho foi ainda mais alto que a feiosa criatura do mal. Foi a vez da Heleninha. Mas ela só subiu. Até hoje, não sei onde a coitada foi parar.
[suspiro]
Ai, ai... Nunca houve playmobéia como Heleninha.
Quem passou incólume por todos esses itens, sem pensar uma vezinha sequer “puxa, eu também já...” que me desculpe. A infância vale muito mais com essas pequenas aventuras para contar depois. O Mumm-ra, um sobrevivente das idéias cretinas minhas e de meu irmão, que o diga!
14:06
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