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SORRIA! VC ESTÁ NA BAHIA, NEGA!...

Ao som de Falsa Baiana com Roberta Sá e Roberto Silva


Nessa época do ano é quase impossível não lembrar da Bahia e das impressões que eu tinha de lá antes de conhecer.

Eu achava que Salvador, enquanto capital da Bahia, era calorenta e abafada. Achava que a música tocava intermitentemente, até na rua. Achava que era cheia de gente bonita e sorridente e que a comida era bem boa. Eu acertei em grande parte.

A cidade, de fato, é quente. Mas não aquele quente enjoado, quente quente. É um quente gostoso, que se mistura com uma chuvona que vem, vai e deixa só o quente-do-bem. Não fiquei daquele jeito ruim, melada, grudenta e achando que devia ter passado o feriado em Moscou. Fiquei bem.

A música não toca na rua. Bem, não nos dias de “DesCarnaval”. Porque nessa semana de folia, eu sei como é. E imagino que deva ser bem difícil para quem não gosta o suficiente do axé, da Ivete ou da muvuca. Mas para quem foi esperando uma cidade barulhenta e, supercarnavalesca, dei com o boi-bumbá n’água. Tudo estava tranqüilo, legal, animado apenas na medida. Salvador, sem Carnaval, tem vida própria. E que vida boa!

Primeiro que, no caso da comida, eu acertei, é sensacional. Mas sensacional de um jeito quase difícil de descrever. Tem os peixes mais saborosos; tem sucos cujos nomes eu precisei escrever num papel para lembrar depois; tem a moqueca – e se eu fosse um camarão, era dentro dela que eu queria morar. E tem a farinha. E tem muita tapioca feita com a farinha. Se não configurasse crime, eu podia seqüestrar o moço da tapioca e trazê-lo pra morar aqui em casa...

Claro que esperar pela comida não é coisa muito fácil. Em Salvador não há correria. Eu sei, vão pensar no Caymmi e dizer que na Bahia é assim mesmo. E é, viu? Se você, paulista mala, tentar fazer pressão ou torcer o bico, vai logo receber um “sorria! Você está na Bahia, nêga!”. Isso dito com aquele sotaque lindo, aquele sorriso maroto e a malemolência... ah, quem liga de esperar mais um pouco?

Porque a pressa não combina mesmo com Salvador. Ela tem seu tempo porque já nasceu real, e quem é real nunca evita a majestade. Em 1549, Salvador, sem nunca ter sido província, virou capital do Brasil. Daí por diante ela se sentiu a bacana, todos a queriam, e ela se tornou casa de uma cacetada de portugueses, jesuítas, artistas – e depois de um pessoal menos festivo para com a cidade, como holandeses que ali atacaram em 1598, 1624, 1638... Esses holandeses deviam gostar mais de moqueca do que eu.

O que se sabe é que a alegria nata de Salvador deve inclusive ter sido forjada nessa misturada boa de indígenas, europeus, africanos. Esses últimos vieram à força, do modo mais que cruel, mas é a eles que temos nós todos, soteropolitanos mesmo ou apenas brasileiros, muito a agradecer. Não é nada bonito saber a história do Pelourinho. Mas é lindo passar por ali, saber, lamentar e esperar por dias mais justos.

Para fazer passar a dor, a cidade tem um point. Mercado Modelo. Lotado – de gente, de colares, de batuques, de roupinhas, de petiscos. Eu amo aqueles chocalhos que imitam chuva que tem lá... É mexer pra um lado e pra outro, ouvir o som divertido e sorrir. Ah, mas em Salvador é TUDO assim mesmo, para ver e sorrir. Afinal, você está na Bahia, nêgo.



Ah! Salvador... eu te como com farinha






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