PLAYLIST DO BLOG
SÓ SEI QUE FOI ASSIM...
Ou "Uma retrospectiva feita porcamente às pressas"
Ao som de Harry Connick Jr. cantando Supercalifragilisticexpialidocious
Em janeiro eu ouvi um tambor e achei que era a chuva vindo. Meu computador ficou de TPM e resolveu não funcionar direito e fiquei uma semana cega, surda, muda e reflexiva, porque ninguém pode ficar assim só porque falta um computador, visto que a gente já viveu uns bons pares de milênios sem a máquina. Mas assim foi.
A certa altura de fevereiro eu achei que ia virar eremita. E então almocei com algumas pessoas que eu não conhecia, a não ser através do computador por conta do meu trabalho (que é produção cultural, não vá pensar maldades), e vi que as pessoas podem ser em presença tão gentis e engraçadas quanto são virtualmente. Desisti de procurar minha própria caverna.
Quando chegou março, eu me levantei às sete e me senti uma clandestina nas horas da manhã. Depois não sei mais nada, porque cometi o despautério de não anotar uma mísera entrada em meu diário naquele mês, e sim, eu escrevo em diários.
Em abril eu ouvi a chuva vindo e pensei que fosse um tambor. A chuva caiu por uma semana, mas parecia a vida inteira.
Já para os tantos de maio, achei que eu tinha um problema sério e insidioso. E depois vi que era bobeira. Então achei que eu era um gênio. Mas isso era bobeira também. Então engendrei uma ligação entre os significados de “sentido”. Não sei se deu muito certo, fiquei com vergonha de mostrar para alguém e descobrir que era mais uma bobeira.
Nos idos de junho eu sonhei com um tigre bebê, bicho papão e com o fim do mundo. Afixei uma nota mental: assistir menos filmes de madrugada.
Em julho eu decidi andar por um caminho. Devia ter vindo o frio, mas na verdade não veio. Quase não teve inverno esse ano, o que me deixou com um sorriso de orelha a orelha e uma sutil vontade de comer fondue que passou depois de meia hora.
Quando foi agosto os dias ficaram melhores de uma hora para outra. Mas não aconteceu nada para explicar tal fenômeno.
Em setembro eu descobri, para meu espanto, que não sabia falar “espiral”
Outubro foi o mês que estourou a crise econômica nos EUA e eu passei umas 23 horas por dia no computador, escrevendo textos, vendo imagens e respondendo e-mails. Mas depois vi o resultado do trabalho pelo qual passei tanto perrengue e tudo fez sentido.
Em novembro eu conversei com uma mulher meio maluca que me pediu um cigarro na estação de metrô. Voltei à Bahia depois de dois anos e aproveitei uma das melhores viagens que fiz até hoje, mesmo sendo à trabalho.
Agora, em dezembro, eu vi um passarinho bem pequeno ciscando perto da fonte de bambu que ao lado da janela onde eu trabalho. Vi ainda que esta cansada não só do lirismo comedido como também da moldura do Word, das idéias que não viram realidades, da faxina na cozinha, de arrumar a cama, das receitas de comida que eu sei e nunca faço, do refrigerante (nunca fui com a cara dele mesmo) e dos programas todos de tv.
Nada mais natural do que estar cansada. Foi um ano longo e bom.
16:48
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