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ELAS POR ELAS



“As coisas nunca foram fáceis. Naquele tempo não havia muita chance para uma moça que quisesse ser independente. Não na minha idade. Então tive que enfrentar muitas coisas para ser e fazer o que eu queria.

Comecei trabalhando numa fábrica, menina ainda, como costureira, lá em Caruaru. As pessoas falavam “onde já se viu, uma moça trabalhando numa fábrica! Só vai aprender o que não deve”, mas eu não ligava. Precisava trabalhar para ter minhas coisas.

Assim que comecei a receber meu salário eu dava boa parte para papai, para ajudar em casa. Com o restante eu comprava aquelas revistas de moda, os melhores tecidos e levava a uma costureira. Quando meus vestidos ficavam prontos me sentia a mais bela da cidade. Eles eram tão engomados que dava para ficarem em pé sozinhos, de tão duros.

Embora fosse também motivada pela vaidade, eu queria provar para as pessoas que eu poderia ser uma “moça de família” e ao mesmo tempo lutar pelo meu sustento e sonhos. Que o fato de trabalhar em meio a tantas outras mulheres com mais experiência de vida do que eu não me levaria a ter um comportamento reprovável. Acima de tudo eu queria mostrar a todos que minha felicidade estava acima da opinião deles.

Mas já faz tanto tempo agora, né, filha? Ainda bem que as coisas mudaram”

* * * * * *

“Quando eu era pequena, tive um galinho de estimação. Eu sei, é pouco comum que este tipo de ave seja estimada pela casa. Afinal, galos e galinhas são bem estúpidos e muito pouco expressivas. Mas o Francisquinho era uma sobrevivente – ao contrário da maioria de suas colegas de classe, que encontravam a panela tão cedo quanto reuniam carne e idade para tal.

Minha vó criava galinhas no fundo do quintal, numa São Paulo que ainda permitia o costume que era comum na época. No bairro muitos vizinhos faziam o mesmo. Acontece que um pintinho nascera fraquinho. Fiquei comovida e me apeguei a ele que, em pouco tempo passou a me acompanhar.

Sei lá como, mas o pintinho melhorou. E assim eu tive um galinho de estimação. Ele, por incrível que pareça, entendia tudi o que dizia. Vinha me receber quando chegava da escola e me acordava todas as manhãs. Até o dia em que, ao sentar-me na mesa para jantar, me deparei com uma travessa de frango cozido com molho. Minha mãe disse que Francisquinho tinha fugido, mas eu não caí nessa. Não jantei naquele dia.

O triste é que isso se repetiu outras vezes, até um cabritinho meu foi parar na panela. Foi aí que eu passei a me apegar a bichos que eles não comiam, cachorro por exemplo”

* * * * * *

Estas são histórias de verdade que aconteceram com mulheres de verdade: minha avó e minha mãe, respectivamente. Mas contadas, claro, pelos meus olhos e palavras – coisa que, ao fim, não importa muito, já que todas as palavras que eu tenho hoje também foram elas que me deram.


Aproveitei o dia para registrar aqui um retalho das memórias que povoam as cabeças (cheias de casos, medos bobos, apegos e desapegos, como convém a todas as grandes pessoas) dessas duas. Afinal, delas herdei não só os genes e traços de personalidade, como também a imaginação e a sensibilidade. Mais que grandes mulheres, elas são grandes pessoas. E definitivamente quero ser como as duas quando eu crescer.

2 comentários:

Anônimo disse...

Clap-clap-clap-clap
Lindo!!!

Bjo

Anônimo disse...

Esse seu lado "familia" que surge de repente é mto fofo.

Quase miguxa (brincadeira!)

BjoKs! (rss)

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