PLAYLIST DO BLOG


♬ ♫ ♪ |̲̅̅●̲̅̅|̲̅̅=̲̅̅|̲̅̅●̲̅̅| ♪ ♫ ♬
.

.

O TESOURO DA CASA VELHA



Ela nasceu em 1889 - como Charlie Chaplin, Adolf Hitler (arght!) e Anita Malfatti - ano em que foi proclamada a Republica. Dos 96 anos que viveu, dedicou apenas três aos estudos, mas apesar disso foi eleita a intelectual do ano em 1983.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ou simplesmente Aninha, filha de desembargador, nasceu em Goiás, numa época em que travessa chamava-se beco e que moça de família não ficava na rua depois que o sol de punha. Sua casa, que foi uma das primeiras construções da antiga Vila Boa de Goiás, ficava às margens do Rio Vermelho e além de lhe dar moradia serviu de inspiração para muitas estórias (assim mesmo, com e, pois ela gostava mais) – estórias essas que passaria a escrever com primor na velhice, sob o pseudônimo de Cora Coralina. Na verdade, Cora sempre nutriu amor pela prosa e poesia, mas foi apenas aos 75 anos que a escritora teve publicado seu primeiro livro.

Não se espante com a idade que ela tinha quando seu livro foi publicado, pois mais espantosa ainda é a idade em que ficou famosa - 90 anos!

Mas para chegar até aí ela passou a infância como menina feiosa e desengonçada, sempre apaixonada pelas palavras. Casou-se com um advogado, com quem se mudou para o interior de São Paulo. No meio da revolução de 1924 veio parar na capital e, justamente por isso, teve que ficar algumas semanas trancada num hotel em frente à Estação da Luz. Só voltou à Casa Velha da Ponte, sua casa em Goiás, vinte anos depois de enviuvar e lá passou a se dedicar à escrita. Septuagenária, decidiu aprender datilografia. E quando não estava às voltas com seus versos e contos, Cora exercia o ofício de doceira.

Foi então que, aos 90 anos, ganhou notoriedade através de um padrinho de peso. Carlos Drummond de Andrade, em crônica para o Jornal do Brasil de 1980, escreveu sobre aquela senhora delicada e simples: “Admiro e amo você como a alguém que vive em estado de graça com a poesia”. Os leitores passaram a ter pressa em conhecer a figura que despertou tamanhos elogios. Mas ela não tinha pressa alguma. Sabe-se que trabalhava árdua e cuidadosamente em cada um de seus livros, revisando os originais diversas vezes, ainda que o tempo continuasse a somar anos em sua já avançada idade.

Abrir uma obra de Cora, seja ela de poesia ou prosa, é entrar em uma máquina do tempo para um Brasil que há muito não existe mais. Ana escrevia com simplicidade, e seu desconhecimento acerca das regras da gramática contribuiu para que sua produção artística priorizasse a mensagem ao invés da forma.

Desde pequena minha mãe me chamava de “minha Cora Coralina”, não que eu tivesse o dom dela, na realidade isso é uma daquelas “coisas de mãe” sabe? Que gostam de babar a cria... Mas serviu para que eu procurasse conhecer mais dessa mulher admirável e ter certeza que nunca é tarde para se começar a fazer algo prodigioso, como eu disse AQUI uma vez.


Dizem que as palavras de uma mãe têm poder, e eu espero que sim!

0 comentários:

Novas