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ANIMAIS CONTRA ATACAM


Tudo começou num belo dia de manhã, eu estava ainda esfregando as remelinhas dos olhos enquanto, quando ouvi um piado insistente lá fora. Abri a porta de sopetão e um passarinho saiu voando assustado, de dentro do arbusto que fica bem em frente. Oh, meu Deus! Eles fizeram um ninho aqui.

Achei legal à beça ter um ninho de pássaros privativo. Os supostos filhotes ficam piando de fome quase o dia todo. Só param quando o pássaro-mãe chega e se embrenha nos galhos, possivelmente munido de uma saborosa minhoca no bico. Digo "supostos" porque, desde esse dia, eu tenho tentado tenazmente ver o ninho, mas nunca consegui. Isso porque eu desconfio de animais, sejam eles pitbulls ou pardaizinhos.

Toda vez que eu tento achar o ninho, fixando com afinco o olhar para dentro do arbusto, fico que nem baixinho em show de estádio: não consigo ver nada. Aí, basta um segundo para que eu comece a imaginar as cenas mais despropositadas. Penso que os passarinhos, estes sim, estão me vendo de dentro para fora. O arbusto deve ser igual àqueles adesivos de táxi, com transparência 50%. Nesse caso, é certeza que eles não vão gostar nada nada de ver uma carona inquisitiva olhando para dentro. E definitivamente vão me atacar, bicando meus olhos abertos e desprotegidos.

Assim, não consigo passar mais que vinte segundos procurando o ninho. É o tempo que leva para as aterrorizantes cenas dos passarinhos me bicando se formarem na minha mente.

Então, para distrair a cabeça, vou para a cozinha fazer uma limonada ou um refresco qualquer. Penso que estarei livre de um provável ataque animal, mas é aí que me engano. Na cozinha, me deparo com uma nuvem - notem bem, não são duas ou três, mas uma nuvem - de drosófilas (um tipo muito chato de mosca). Elas cercaram a cesta de cebolas e batatas e já dominaram a fruteira. Meti um pano em cima das frutas para ver se elas se tocam de que não são bem-vindas. Mas qual. Elas não estão nem aí para o pano. Entram por debaixo dele, em algum esquema que ainda não desvendei. São espertas, as drosófilas. Desconfio que, qualquer dia, acordarei flutuando em meio caminho entre o quarto e a porta de casa. Serão elas me botando para fora.

Que puxa. Agora vou lavar as mãos. Mas o quê...? Ah, não. Moscas de banheiro! Pelo menos, mal estas não fazem. O problema com as moscas de banheiro, chamadas muito apropriadamente de chica por alguns, é que elas são burras de doer. Dá pena. Onde já se viu pousar dentro da pia, do box e até do vaso? Na primeira lavada/esguichada/descarga, lá se vão as chicas pelo ralo.

Eu não sei como o dodô se extinguiu e esse bicho ainda não.

Talvez os bichos estejam planejando um ataque à minha casa. O as baratas já tentaram na minha antiga casa, mas viram que sozinhos é impossível. Quiçá eles estão se organizando, coordenando células de ataque em reuniões esfumaçadas num buraco atrás do batente da porta. Até imagino um rato de faixa vermelha à la Rambo na cabeça, brincando com um punhal, e uma barata fumando e dizendo, em voz cavernosa, que já perdeu muitos parentes nessa casa.

Nisso as chicas, em sua infinita ingenuidade, provavelmente são escaladas para fazer a linha de frente - como todos sabem, as fileiras onde mais se morre em combate. Os passarinhos cercarão o flanco direito e às drosófilas caberá a missão de sabotagem da cozinha.
Se um dia eu não aparecer por aqui, leitor, já sabe. Chama o Departamento de Zoonoses.

Às vezes me pergunto para onde foram as camisetas sem estampa. Devem morar no mesmo universo paralelo onde estão todos meu guarda-chuvas perdidos e minhas canetas bics esquecidas por aí. As peças devem estar vestindo gnomos que se agitam no show de Elvis (sim, ele está lá também), enquanto as cinco luas iluminam a noite.

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