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ACENE E SORRIA!

Quem me conhece sabe o quanto meus sentidos são defasados.

Eu enxergo mal (já bati o carro do meu pai num poste sem perceber) e ouço pior ainda, até agora não sei como tirei carta. Ainda por cima, tenho a tendência de preencher com a imaginação os buracos deixados pela minha incapacidade.

Mas nem sempre é possível inventar alguma coisa para completar o que não entendemos. Isso é fácil quando não compreendo o que uma música diz, mas fica duro criar uma frase e responder em cima dela quando não ouço o que meu interlocutor acabou de me falar, por exemplo.

Se é pessoa conhecida, pergunto "o quê?" até entender – o que pode levar de duas a cinco vezes. Mas se é algum recém-apresentado, a intimidade não dá para esse gasto.

A solução? Indago uma vez ou duas "como?" e, depois disso, se ainda não captei o que saiu dali nem com leitura labial, faço uso da tática "acene-e-sorria", que consiste em levantar um pouco as sombrancelha, sorrir de leve e fazer um gutural e interessado "hum…".

Claro que a tática traz um certo risco calculado. Imagine só se o que o sujeito está querendo me dizer é "que horas são?" e eu, balançando a cabeça, respondo "hum…"? Aí é cruel demais. Ainda bem que ainda não aconteceu… acho, talvez, fiquei na dúvida agora.

Já com a defasagem visual, o disfarce é dizer: "ah, sim, vi…", com o mesmo balançar suave da cabeça, mas uma expressão mais confiável no olhar. Essa é minha resposta-padrão para as ocasiões em que alguém me diz, diante de uma vista panorâmica que engloba um raio de umas sete léguas: "olha, eu moro naquele prédio ali, tá vendo? Aquele alto, com varandinhas".

Deus meu! A que ponto chegamos!!!

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