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NÃO EXITE! ELE NÃO EXISTE!


Eu tenho uma leve desconfiança de que o Suriname não existe.

Tá, eu sei que dizer isso assim, faz com que as pessoas acreditem ainda mais que eu não bato lá muito bem.

Mas vamos aos fatos: alguém já viajou para o Suriname? Alguém já viu fotos do Suriname? Alguém se lembra de alguma notícia ou fato importante acontecido no Suriname?

Das duas, uma: ou não acontece nada lá ou o pedaço de terra que está entre a Guiana e a Guiana Francesa não existe mesmo.

Tudo bem que também não se ouve dizer muita coisa do Uruguai, por exemplo. Mas a gente sabe que ele existe: tem seleção de futebol e até já ganhou do Brasil numa final de Copa do Mundo.

Qual não foi minha surpresa ao encontrar, então, uma notícia de que o presidente do Suriname estava no Brasil! Por um instante, acreditei na existência do país.

Mas logo percebi que era uma pista falsa: o nome do cara é Runaldo Ronald Venetiaan. Isso só pode ser um nome inventado. É como se chamar Art Vandelay. Ou Josecrilda Fedegosa. E se o nome é inventado o país também é.
Após extensa pesquisa para determinar se o Suriname existe ou não, descobri que um famoso jogador do Milan, Seedorf, diz ter nascido lá.

Mas até aí, eu posso dizer que nasci em Xangri-La. Ou em qualquer um dos países que eu inventava quando era menor, depois de ter lido "O Menino Maluquinho". Aliás, vai ver foi essa a origem do país. Alguém resolveu inventar terras, florestas e relevos generalizados depois de ler o livro.

Ninguém se dispôs a ir até lá checar, ficou o dito pelo não dito e assim surgiu o Suriname. E não só o Suriname, mas também Cesário Lange e Walla Walla.

Tá lá no mapa, mas não existe. Vai por mim!!!

AO LADO...



Ele ou ela pode ser um amigo que está sempre pronto a ajudar a regar as suas plantas quando você estiver viajando. Ele ou ela pode ser um palpiteiro que adora se meter no modo como você cuida do seu cachorro. Ele ou ela pode ser um folgado que vive pedindo para tomar banho na sua casa quando o chuveiro pifa na dele. Ele ou ela pode ser um chato que fura a bola do seu priminho se a dita cuja cair do outro lado do muro. Ele ou ela pode ser um sem-noção que resolve treinar bateria às três da manhã. Ele ou ela pode ser qualquer pessoa, boa ou má, legal ou mala, barulhenta ou silenciosa. Mas vizinhos são vizinhos e a gente nunca vai estar livre deles.

Minha primeira e melhor lembrança de vizinhos vem da casa em que passei a maior parte da minha infância. Ali tinha literalmente de um tudo: desde a dona que era diferente de todo o resto do pessoal até a velhota meio maluca que nunca saía do muro, passando obviamente pelo jovem estranho que todo mundo achava que era “caído no tóchico”.

À direita morava a Vó Cida, na realidade nós tínhamos o hábito de dizer que eles moravam “lá traz”, muitas pessoas já moraram lá, mas tem algumas que marcaram muito mais que outras. Tio Hugo, por exemplo, amava cantar em plenos pulmões “aaaaai mataram meu carneiro/ aaaaai cortaram os quatro pé”, e a Tia Jurema com sua família (esses tem um lugar todo especial no meu coração), ela e o Tio Roberto eram os responsáveis pelas nossas tardes regadas à batidas e pizzas de todos os tipos, ta certo que eu não bebia mas..., isso sem contar com a Jana e o Jr que completavam a bagunça como ninguém.

À esquerda morava a Dª Francisca com sua filha e netas. Era a casa das cinco mulheres. Lá aconteciam os melhores “eventos” da rua, que iam desde almoços em domingos ensolarados até comemorações entusiasmadas depois de um jogo do Brasil na Copa, passando por todas as outras festas e afins de que se tem noticia. Nós, eu e as três netas da Dª Francisca, éramos inseparáveis, brincávamos de tudo e foi com elas que acabei desenvolvendo meu lado artístico, por assim dizer, uma vez que vira-e-mexe estávamos montando alguma peça de teatro, bolando uma apresentação e até fazendo programas infantis!

Na casa ao lado morava Dona Emilia com seu marido, o "Sêo" José e um dos seus três filhos. Sempre a encontrávamos indo à padaria “comprar cigarro pro Zé”, ou bordando algo, fazendo crochê, e todos os tipos de trabalhos manuais que pudesse fazer. Ela estava enrolada com Dª Dolores, sua tia, que ficava no muro o dia todo vendo o que acontecia na rua e brigando com os transeuntes, toda vez que conversava com ela era o mesmo assunto: quando ela morava “no Tijuco Preto” e era mais nova... enfim.

E havia muito mais gente. A senhora boazinha que tinha um neto bonitão (na época), a gente até apelidou ele de “Gato”. O pessoal do Martins Kombi. As irmãs solteironas e mal-humoradas que jogavam lama nos carros que paravam em frente à casa dela. O pessoal que morava em frente a pracinha que um dia foi bonita. A moradora “nova” que todo mundo ficava tentando classificar e observar para descobrir os podres.


Boas ou más, legais ou malas, barulhentas ou silenciosas. Em todos os casos, ter pessoas morando coladas na nossa casa pode ser divertido. Até porque isso também faz de nós... vizinhos.


FUNDO MUSICAL


É gostoso ouvir música. É gostoso ouvir música no carro, mesmo que o congestionamento já tenha tomado a calçada e o sujeito ao lado esteja mostrando “o dedo do meio”. É gostoso ouvir música deitada na cama, chorando feito um bezerro desmamado porque o carinha da 7ª B não dá bola. É gostoso ouvir música em festa, em viagem de ônibus, na casa do amigo. Tem gente que, de tanto gostar de ouvir música, quer levar o som para as ruas! E até para dentro de supermercados, elevadores, salas de espera... É a famosa música de fundo.


Quer dizer: a Enya, entoando seus cânticos de fertilidade da Baixa Irlanda, não é uma coisa para irritar. É feita para inspirar. Só irrita mesmo quando você está ali, com a boca aberta pro dentista, tratando o canal, aí dá vontade de afogar a Enya no flúor. Mas não foi culpa dela ter virado um hit da música de fundo.

Acontece. As canções são boazinhas e caem no gosto geral da população. O artista ganha prêmio, torna-se um líder de mercado. Então ele entra, sem querer, no hit parade dos estabelecimentos supracitados. Ou vai dizer que você não encarou ao menos uma dúzia de vezes “O Canto da Cidade”, esganiçada por Daniela Mercury, enquanto tentava desesperadamente pagar quatro danones e um saco de pão?

Lugares de orçamento reduzido, como a quitanda da esquina e o oftalmologista que atende no porão, operam no básico: fundo musical de rádio. Colocam numa estação bem neutra, dessas que parecem ter locutor feito de papelão. E ficam ali, o dia todo tocando sucessos de Lionel Ritchie e Steve Wonder.

Duro são os hipermercados milionários e os laboratórios de exame ponta de linha. Esses podem comprar CDs e lotar uma disqueteira. Pior: em caso de verba plena, inventam uma rede própria – como a “Rádio Pão de Açúcar” – e preparam suas próprias listas musicais. Aí, meu filho, vai ser um tal de ouvir Caetano Veloso e seu CD de regravações ad infinitum.

Já existem até os clássicos do setor. Veja se você escapou dessa parada ou foi pego pelas “Dez Mais do Fundo Musical de Locais Públicos”:

Décimo Lugar... Kid Abelha!
Podem passar a vida cantando temas adolescentes, mas sempre terá alguém balançando o quadril com eles – enquanto escolhe uma lata de milho no corredor das conservas. Servem bem para servir sempre.

Nono lugar... Zeca Pagodinho!
Muito usado em locais que aprovam a informalidade, como restaurantes por quilo e salas de espera da manicure. A desgraça é que, depois de dez minutos aguardando, o cliente começa a achar o Zeca um poeta.

Oitavo lugar... Norah Jones

Devia se orgulhar, essa jovem diva do jazz, de vir fazer fama aqui tão longe. Norah virou a namoradinha dos consultórios de psicólogo, pois passa ao mesmo tempo seriedade e elegância. Enjoa em cinco minutos, mas é uma graça.

Sétimo lugar... Banda Eva/ Ievete
Eu sei, Ivete Sangalo já saiu de lá faz tempo, mas quem precisa dela para fazer carreira? A Banda Eva teve, tem e sempre terá um espacinho no coração da secretária da ginecologista, a responsável pelo aparelho de som. E sua eterna vocal, idem.

Sexto lugar... Simone, Gal, Bethânia
Empate técnico, pois quando começa o CD de uma, pode contar que virão todas em seqüência. Embora Simone tenha abraçado a causa dos discos natalinos ela nunca abandonou, assim como as colegas, o setor de frios do mercado.

Quinto lugar... Paralamas do Sucesso
Mas é óbvio que não se toca “Cinema Mudo”, “Meu Erro” ou “Vital e Sua Moto”. Só a fase mais recente do grupo é que cola no fundo musical – principalmente nos shopping centers. Centros de compra gostam de temática filosófica, sabe-se lá por quê.

Quarto lugar... Kenny G
Quando a otorrinolaringologista está sem muita criatividade, é no Kenny que ela aposta. Não compromete – e pode ser que o paciente fique em transe e deixe de reparar que está há duas horas e meia esperando consulta.

Terceiro lugar... Lulu Santos
É incrível: bastou colocar o pé no salão de cabeleireiro, lá vem ele “como uma onda no mar”. Não sai de moda na parada de fundo musical – e “Assim Caminha a Humanidade” deve ser triplo disco de platina de elevador.

Segundo lugar... Sandy e Junior
Porque não é tortura suficiente você encarar corredores e mais corredores de supermercado. A dupla irá persegui-lo até o estacionamento, onde caixas acústicas dão continuidade ao som do interior do prédio. Aliás, alto-falantes em estacionamento? Manobramos melhor ao som de “Dig Dig Joy”?

Primeiríssimo lugar... Acústico Rita Lee
Eu gosto bastante das músicas daquela senhora de rosto alvo e cabelos vermelhos. Mesmo assim, fica estranho sentar para cortar cabelo e ouvir “um belo dia resolvi mudar...”. E depois entrar na padaria e escutar “...e fazer tudo o que queria fazer...”. E então tomar um táxi onde está rolando “Me libertei daquela vida vulgar...”. E aguardar a depiladora ao som de “... que eu levava estando junto a você”. Se eu morrer e houver velório, aposto que será no embalo de “Agora Só Falta Você”.

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